1a PARTE: "A folha que tudo vê"

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Nathalia - Em primeiro lugar, agradeço por gentilmente aceitar meu convite para essa conversação. Tenho lido seus posts contando as histórias a respeito das antigas árvores de chá e minorias étnicas de Yunnan... A China significa muito para mim. Gostaria que esse diálogo pudesse transcorrer como um papo entre amigos, ao redor de uma mesa de chá e de modo não-linear. Mas já que estamos em pontos distantes do planeta, podemos ao menos experimentar escrever acompanhados de uma xícara de chá. Neste momento que lhe escrevo, estou degustando um chá verde chinês completamente novo para mim chamado Zhi Tial. Bem... Então, vamos começar pelo começo: que é a ‘casa’. Este nosso porto mais íntimo e primeiro, de onde partimos e para onde estamos constantemente retornando, como já apontou Bachelard. Também Nicola Perullo, meu amigo e grande filósofo italiano, diz algo semelhante em seu livro O Gosto Como Experiência, quando fala que todos temos uma ‘cena primária’, que eu acredito que nos impulsione de algum modo pela vida a fora, ao mesmo tempo em que nos traz sempre de volta ao passado, às nossas origens. Minha ‘cena primária’ mais marcante é de um restaurante que minha família por vezes nos levava para jantar quando eu era criança. “Os Monges”, como era chamado, reproduzia o ambiente de um monastério medieval… Os garçons vestiam trajes franciscanos e havia um constante som canto gregoriano ecoando pelos ambientes iluminados apenas por velas. E eu lembro que adorava aquela sensação de ‘ausência temporal’ que me invadia toda vez que entrava naquele lugar, onde os adultos naturalmente baixavam o tom de voz e a comida nos era servida como um acontecimento incrível e, no entanto, tão simples. Eu podia comer minha refeição em paz naquelas condições, pois sentia-me calma e segura. Essa experiência ficou profundamente gravada em minha carne e me dei conta de que é isso que está por trás do que proponho compartilhar quando sirvo chá… É um momento em que tenho a oportunidade de criar este ‘ambiente confiável’ onde se possa simplesmente vivenciar uma certa intensidade de quietude para escutar o próprio silêncio, a própria presença. Então, para mim, esse ritual diz respeito ao cuidado. Essa é minha ‘cena primária’ e eu agora gostaria de saber qual é a sua. Você peregrinou pelas regiões que formam o “berço da Camellia sinensis” e lidera expedições por esses lugares… O que o move em direção às origens do chá?

Jeff – Agrada-me muito responder a perguntas como essas, que nos permitem penetrar nos tópicos do viver, do sentir e se impactar... Neste momento estou na Cidade do Cabo, na África do Sul, e tenho ao meu lado uma xícara de He Kai: Puerh cru elaborado a partir das folhas de árvores anciãs. É um dos meus ‘chás de viagem’... Tem um brilhante toque de poder vegetal que termina adocicado e me transportando instantaneamente de volta à floresta de Xichuangbanna, ao sul de Yunnan, junto à família que o produziu. Goles, mordidas e aromas têm o poder ancestral de nos evocar imediatamente os lugar e até mesmo de resgatar pensamentos. Uma cena original, que tenho fixa em mim, sou eu pequeno sentado na cozinha e encantado com minha avó húngara enquanto ela preparava refeições a partir do básico. Ela era um dervixe de energia em movimento, um núcleo para a nossa família e eu a sua testemunha feliz. O que me impressiona nela é que, onde quer que estivéssemos, tudo o que ela fazia exigia as mãos e precisava absolutamente de tempo. Havia orgulho e integridade na preparação e consumo e houve gratidão por aqueles que comiam. Uma espécie de memória muito primitiva e antiga relacionada àquelas refeições da infância é acionada em mim sempre que estou perto de uma "fonte"... que seja a origem de um chá, a nascente de um rio ou uma montanha. Sentimos que, muitas vezes, falhamos inteiramente em afirmar nossa necessidade de mais tempo, mas com uma refeição, um movimento ou um gole, podemos recuperar esse direito de fazer um momento durar e produzir um impacto sobre nós. O chá estava presente em nossa casa desde cedo, como uma propensão para as coisas e os gostos asiáticos, e por essa razão ele é para mim um conforto. E sua preparação é um ritual que é quase tão vital quanto o chá em si. Os pensamentos e as inspirações parecem tornar-se mais reais e confiáveis uando se reforça o vínculo com o ritual, por mais delicado que seja. É o equivalente a uma comunhão sagrada.

Nathalia – E você poderia citar alguma cena mais recente, ocorrida durante suas andanças pelos territórios do chá, que tenha lhe proporcionado essa qualidade de experiência?

Jeff – Sim... Tenho uma cena, ocorrida há poucos anos, que me trouxe essa experiência atemporal. Foi durante a entrevista com um velho muleteiro que transportava chá. Sentado a 5000 metro de altitudes, junto a esta grisalha lenda das montanhas, que dedilhava com o polegar as contas de seu mala, falamos por quase três dias. Ele parecia viver imerso no chá, que lhe algo muito além de um mero luxo...  Era um combustível. A folha do chá tinha para ele um valor inestimável, pois ele lembrava de tudo que teve de enfrentar no transporte desse chá para comunidades isoladas em todo o Himalaia. Ele era, pelo menos para mim, uma espécie de representante da simplicidade e dos valores despretensiosos do chá. Para mim é nesta simplicidade que a folha do chá se mostra como algo eterno.

  Tenzin, um dos raros remanescentes dos antigos 'muleteiros'. Em seu tempo, transportava chá e sal pelas rotas comerciais que conectavam a região. "Se você quer respostas você terá antes de ouvir", disse ele ao explorador. E assim, uma entrevista que era para durar apenas algumas horas, acabou durando quase três dias. "Trago ele em meu sangue até o dia de hoje", conta Jeff.

Tenzin, um dos raros remanescentes dos antigos 'muleteiros'. Em seu tempo, transportava chá e sal pelas rotas comerciais que conectavam a região. "Se você quer respostas você terá antes de ouvir", disse ele ao explorador. E assim, uma entrevista que era para durar apenas algumas horas, acabou durando quase três dias. "Trago ele em meu sangue até o dia de hoje", conta Jeff.

Nathalia – Ainda falando a respeito das motivações e dos ‘porquês’... Que espécie de experiência você vivencia nesses lugares?

Jeff – Ao trilhar algumas dessas fontes tão pouco exploradas do chá, o que se evidencia é um ‘contexto das origens’, que nos condições imediatas para uma apreciação in loco daquela cultura e daquela terra, estabelecendo o link vital que se tem com todos esses elementos. É uma espécie de mapeamento profundo que vem à tona. Minha motivação em rastrear essas rotas pelas montanhas e de documentar essas culturas está relacionada ao desejo de fornecer uma espécie de luz sobre as origens do chá, sua gente e seus percursos. Para além dessa colorida linguagem que nós agora usamos para falar sobre o chá; para além das altitudes, dos cultivares e das nuances... Bem antes de tudo isso, o chá é fundamentalmente algo muito simples. É um dos alimentos atemporais para a mente e o corpo. Com frequência me refiro ao chá como “a folha que tudo vê” e às montanhas como “o lugar cálido”. Há bastante tempo, as montanhas e o chá têm sido santuários para mim – ambos nos purificam, abrandam e estão completamente engastados na paisagem. As rotas do chá entrelaçaram-se com as rotas de peregrinação e com as antigas trilhas migratórias e há séculos vêm carregando DNAs, culturas e ideias através de seus caminhos. Essas rotas contribuíram muito paradesenvolvimento asiático e da região do Himalaia e, no entanto, sabemos tão pouco sobre ela no Ocidente. Para mim, essas rotas oferecem um novo modo de conhecer as montanhas e seu velho compatriota, o chá.