Beber e babar...

De tudo quanto li e ouvi de Nicola Perullo, destaco aqui uma pérola: a afirmação de que o paladar não está apenas na boca. A experiência gustativa se engendra no interior de um cenário de sentidos... E se tece de múltiplos inputs sensoriais. A boca é, nada mais, que mera expressão fisiológica e especializada de uma função orgânica mais ampla e dispersa pelo corpo, que consiste em nutrir-se dos 'ambientes' que nos cercam.

Nossos corpos-subjetividades estão, constantemente, imersos num ciclo digestivo ininterrupto de tudo quanto nos entra pelos poros, ouvidos, olhos etc. Coisas entram (ares, aromas, ardis, palavras, impressões, afecções) e coisas saem (emanações, explosões, expressões, excreções, expirações, exposições). De modo que estamos continuamente, conforme bem formulou Ligia Clark, "bebendo e babando" a experiência.

E bebemos as babas uns dos outros, bebendo do mundo e babando nosso mundo-eu pelo mundo, nessa linha movente que liga o dentro e o fora num sem-fim recortado apenas por camadas, peles, tecidos corporais. Fronteiras semi-permeáveis. Sabedoria de vida, pra mim, é aprender a ir pegando gosto pelo balancinho das ondas... vida leva, vida traz. Um pouco como 'gostar de gostar', ensina Gil.  Como saborear os ambientes, como colher o nectar do mundo? Como colher???

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