Sobre tornar-se algo...

Tornar-se qualquer coisa é uma tarefa árdua. Não posso dizer, simplesmente, que "sou" alguma coisa. Todo aquele que conheceu o sabor das angústias, dos esforços e das incertezas que se pode experimentar quando se engaja num projeto de si, sabe que ao final do processo não basta apenas dizer "agora sou isso". Dizemos: "tornei-me". E estou, ainda, me tornando. Tornar-se alguma coisa... Como o torno que modela o barro para forjar um bule que, no entanto, jamais encontra forma definitiva. É o próprio ser que se amassa no corpo-a-corpo com a vida. Amassa-se para tornar-se mais macio ou mais firme, para temperar a massa e acertar-lhe a consistência a cada momento, dar-lhe o ponto de uma nova modelagem em face às novas situações. Ser que se tenciona no vir-a-ser. E que precisa ser batido, trabalhado e processado no fazer e na pausa do descanso. Descanso que também é tempo construído. Pois a vida não cessa de nos preencher e, nos preenchendo, vai engastando novas dobras de experiência em nosso tecido. No silêncio dos repousos, o novo ser que secretamente gesta-se em nós de nós mesmos se alimenta. Digo mais: é justamente nesses instantes de imobilidade e inação, que se seguem à agressiva intensidade das ações e dos trabalhos, quando o corpo arduamente manejado e retorcido é depois deixado ao sol - deixado a sós - é aí que algo de fato começa a acontecer. E o que é que acontece quando nada está acontecendo? Ahhhhhhhh...

 Imersos no ciclo eterno do vir-a-ser, estamos todos AQUI...

Imersos no ciclo eterno do vir-a-ser, estamos todos AQUI...