Sobre o "medo de mudar"

* A partir do encontro de pesquisas corporais realizado no dia 16/03/18 com a terapeuta e educadora somática Cecília Gobeth, partindo do estudo do sistema Feldenkrais para investigar a oralidade como expressão da subjetividade.

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O tema, como sempre acontece em nossos encontros, "se apresentou". Percebemos que a ansiedade dos tempos atuais tem a ver com o "medo das mudanças". Ciça e eu esmiuçamos um pouco o sentido dessa frase... Refletimos bastante sobre esse tema lendo um trecho de uma palestra proferida por Moshe Feldenkrais, na qual ele começa partindo da premissa de que não podemos modificar nossa natureza corpórea. Um corpo não muda a substância física que o constitui. Então a que nos referimos quando falamos em “mudança”? Certamente não estamos falando de nossa substância, mas do modo como ela se expressa e se modela na relação com o ambiente.

Feldenkrais fala que a mudança à qual nos referimos tem a ver com um reframe, ou seja, uma “reemolduração” de si dentro dos contextos. Portanto, o medo de mudar não tem a ver com uma transformação de nossa essência física, mas com a ideia de perder um certo senso de orientação que me permite construir minha existência, dentro certos parâmetros e comportamentos que têm me garantido alguma estabilidade e algum domínio (entendido como sensação de segurança) sobre meu destino.

É imerso desde a origem num certo ambiente, num certo mar de vibrações sensoriais, que o ser edifica sua identidade corporalmente encarnada. A identidade aqui entendida como uma determinada arquitetura da subjetividade: a escultura individual é uma trama de comportamentos, formas e modos de nos vincular; nossa aparência, a qualidade de nossas ações, nossa voz, nossa linguagem enfim. Esse conjunto nos dá um certo modo de proceder, de agir, de responder aos afetos externos que me permite um sentimento de controle sobre mim mesmo e sobre os processos, portanto sobre a condução da minha vida. A identidade é, assim, um conjunto de hábitos... Memória, história pessoal. Engendra-se em torno de um certo eixo que fomos, de modo mais ou menos precário ou consciente, estabelecendo ao longo da jornada.

Esse eixo nos dá uma noção pessoal de equilíbrio e sentido. No entanto, esse eixo precisa dançar com a vida... Ele não é fixo e plenamente estável, como não são fixas e estáveis a coisas ao redor. A vida é um flow em processo contínuo e perpétuo de trocas, nutrições entre os corpos, desenhos que se desconfiguram e tornam a se remodelar noutras geometrias, redefinições das cartografias na dinâmica do ser em interação com os ambientes. O medo, nesse sentido, é altamente biológico: tudo tem instinto de sobrevivência e até mesmo uma subjetividade desalinhada resiste a vivenciar um processo de reemolduração de si. Terapias exigem coragem.

O corpo habitual, o corpo identificado com um certo modo de produzir sua vida, resiste a enxergar e assimilar as novas configurações exteriores que lhe exigem mudar os parâmetros. Portanto, o medo é de mudar os parâmetros, já que isso afeta e ameaça minha sensação de segurança, pois problematiza meu eixo. E isso naturalmente causa ansiedade e reações defensivas. Eu me defendo de tomar contato com aspectos mais inconscientes e arraigados em minha personalidade (porque são tão íntimos que me escapam, já não os percebo como parte mim, pois os internalizei como um “eu”) quando estes se veem expostos face a circunstâncias exteriores que me impelem a repensar padrões de pensamento e comportamento.

Para reerguer um novo eixo é preciso ter as ferramentas adequadas. É necessário um savoir faire relacionado ao cultivo de si. Mas a educação que está posta aí para todos não nos propõe essas ferramentas de autoconstrução. Nossa educação é utilitária, sem ser funcional. Não se preocupa em preparar seres confiantes em sua capacidade autopoiética, ou seja, sua força e competência para se remodelarem a si mesmos na dança com os acontecimentos. Disso decorre a formação de indivíduos que não aprenderam a “dançar”. E quem não sabe (e não deseja aprender a) dançar se recolhe a um canto do salão, maldizendo os outros que estão se divertindo no centro do tablado.

Quem não aprendeu a exercer sua autoria de modo dinâmico e genuinamente interativo não se sente à vontade perto de quem esbanja desenvoltura e fluidez... O eu reativo, ressentido e perverso é aquele que não sabe como fluir, não quer aprender e tem raiva de quem sabe. Esse tipo de comportamento é tão natural e de certa forma banal que, simplificado dessa forma, até nos faria rir. Não fossem tão trágicas as consequências desse agenciamento subjetivo – dessa moldura. Assim, é importante entendermos que não partirá desse sujeito a iniciativa e a proposta de reverter essa situação. Ele apenas não sabe como sair desse lugar, extraviou-se em sua cela interior, investiu todas as suas forças na produção de um orgulho, um brio, uma musculatura, uma vida enfim que o faz sentir-se em pé.

Como esse eu poderia se permitir desmantelar-se para apostar noutra forma mais suave, flexível e harmoniosa de existir? Esse eu – que de algum modo e em alguma camada está presente em todos nós – depende da boa vontade de algum dentre aqueles corpos alegres e dançantes em se dispor a se aproximar para esboçar um diálogo. Que esta generosa alma tenha o cuidado e a inteligência de não tentar diretamente removê-lo de seu canto obscuro, mas antes procure ganhar sua confiança e seu respeito.

É necessário que esse outro eu-bailarino ajuste seu passo ao daquele eu-rígido e que imite seu movimento de estagnação, entrando primeiro em empatia com a situação subjetiva do outro para compreender, em seu próprio corpo, de que modo se estrutura o lugar apertado onde aquele outro eu se encontra. Estamos falando de uma escuta terapêutica. Uma certa abordagem que permite ao eu-dançarino compreender a cartografia de estrangulamento do outro para perceber onde podem haver fissuras na superfície, linhas de fuga que permitam a criação de estratégias. Daí passamos a falar de caminhos, uma determinada prática terapêutica.

Esta prática não existe a priori: ela é tecida na urgência e na necessidade do encontro entre os corpos fazendo suscitar sugestões de rotas. Talvez surja, por exemplo, a ideia de convidar aquele corpo a caminhar junto até o bar para buscar uma bebida, atravessando o salão... Ora, talvez o simples ato de caminhar não pareça perigoso e inaugure a possibilidade do deslocamento: aquele eu sai de seu isolamento sombrio e ensaia uma primeira travessia pelo centro de sua existência, onde o foco de luz do baile lhe oferece um primeiro sabor de protagonismo exercido em relação.

E talvez essa travessia, se refeita diversas vezes com calma e atenção, sempre embalada pelo sentimento de amizade que aquele encontro inspira, possa dilatar-se... Talvez a travessia possa ganhar duração e intensidade. Pausas eventualmente podem se dar nesse trajeto. E talvez uma canção, em algum momento nesses cruzamentos, possa inadvertidamente capturar aquele eu e removê-lo para fora de seu enquadramento. A melodia poderia, então, encontrar uma abertura para penetrar em suas fibras e fazer vibrar novos lugares corporais. Então novos canais se abrem e os fluxos começam a se mover pelas camadas... Perfurações na estrutura permitem novas qualidades de respiração. Uma alegria torna-se possível. E então, sem que ele saiba, este EU já começa a dançar. A isso costumamos dar o nome de “cura”. Ou simplesmente mu-dança.