A redescoberta (voltar às origens)

Instalação sensorial "O Nariz do Chá", realizada pelo O CHÁ | Núcleo de Educações Sensoriais )(constituído por mim, Monica Costa e Cecília Gobeth) em março de 2018, trabalhando com chás brancos, verdes e amarelos. Monica concebeu pratos baseados na mandala de aromas que estudaríamos nos chás servidos naquele encontro. Os alimentos (e outros estímulos sensoriais) seriam degustados a partir de um estado corporal mais aberto ao "transbordamento", sendo que a condução desse preparo sensorial ficaria a meu cargo. Sempre introduzo os encontros com um tema reflexivo para criar o campo da experiência. Compor o nosso mar de palavras-chave... Palavras que abrem novas portas de percepção e nos permitem novas perspectivas para observação de si, para o captar do acontecimento.  

Ciça, que é terapeuta e educadora somática, abriu os trabalhos com uma proposta de exercício pelo sistema Feldenkrais, que tinha como objetivo preparar os corpos para o “ficar sentado” à mesa. O ponto em comum entre nossas pesquisas, razão pela qual unimos nossos trabalhos em torno do paladar, é esse olhar para as funções e os movimentos mais primordiais da vida. Trata-se de um “regressar às origens”, aos gestos e ações fundamentais de nossa etapa pré-fala.  Revisitar este corpo aberto, poroso e investigador de si, resgatar sua máxima potência de absorção e irrigação das experiências... Corpo que ainda se esforça por cartografar as sensações, ainda não domesticado pela cultura. Lugar onde tudo ainda é apenas protopensamento e esboços de caminhos, um balbuciar de formas na tentativa de dar vazão (expressão) aos afetos.

A prática corporal que Ciça propôs na instalação baseava-se em movimentos muito simples que solicitavam dos participantes pequenas variações de ação na mesma situação sentada. O que permitiu maior flexibilidade e disponibilidade dos corpos de todos para permanecerem confortavelmente presentes e atentos à experiência até o fim. Perceba que este não é um detalhe banal. Se nosso intuito fosse apenas obter um “relaxamento”, talvez usássemos massoterapias ou escalda pés. Mas a proposta era um exercício de aprendizagem de si através do movimento. O que acontece com meu olhar quando eu movo minha cabeça? Como desvencilho uma coisa da outra? Como posso fazer para que a rotação da coluna aconteça do modo mais livre e natural possível?

A mesma premissa seguia pelas narinas e pela boca a dentro... Se inicialmente os deslocamentos eram exteriores e visíveis – movimentos dos membros do corpo – agora o foco era na relação com as mãos que levavam os chás e alimentos em direção à boca. Um gesto primal, para dizer o mínimo. A maioria de nós jamais dedica atenção a esses núcleos de ação tão profundamente enraizados em nosso cérebro mais arcaico. Acredita-se que nada de novo haveria de ser descoberto nesses territórios que, supostamente, foram já suficientemente assimilados e ficaram para trás em nossa história. Não havendo motivo para nos determos a investigar o modo como nos levantamos, caminhamos, sentamos ou deitamos, passamos aos assuntos de fato importantes da vida humana adulta. A verdade, porém,  é que esses lugares não estão de modo algum perdidos num passado distante de nossa memória corporal. Estão bem aqui, entranhados em nossos tecidos, continuamente reatualizados e readaptados conforme as necessidades de resposta interativa com os diversos ambientes e contextos. E essa flexibilidade adaptativa será maior ou menor conforme nossa capacidade e disponibilidade para nos remodelar... Portanto nosso tema é a construção da “identidade”.

Padrões básicos de movimento aos quais se agregam camadas de comportamento, modos de nos relacionar, de desejar, linguagear, atrair ou repelir (circunstâncias e encontros), compor redes, produzir riqueza, em suma, de criar e gerir nossas vidas. Estamos falando em processo de subjetivação: como fazemos o que fazemos. Numa conversa que envolve todos os extratos do sistema, esses movimentos primordiais começam a ganhar contornos psicológicos e emocionais à medida que avançamos na escala das aprendizagens mais complexas que vai sendo adquirida ao longo de nossa trajetória. Muitos dos transtornos alimentares, estresses, ansiedades e depressões que vivemos hoje encontram sua origem justamente aí, no cerne mesmo de nosso projeto corporal.

Portanto, todo nosso trabalho técnico não será voltado à educação dos sentidos com vistas à avaliação organoléptica, mas a tornar o corpo apto a sentir e a expressar para nós mesmos as sensações e a vozes que ecoam e emanam de nossas gargantas, em todo o seu fulgor. Aprender um modo de linguagear (portanto de conviver, partilhar) menos pautado em tecnicidade e pragmatismo, mas matizado pelo sabor de nossas próprias imagens corporais. É como um “falar de boca cheia”, como orador que degusta suas próprias palavras, seu narrar / babar a experiência. O saber despertado pelo sabor.

Ao final dessa jornada no Bistrô, ouvimos um depoimento muito sensível e contundente de uma mulher recém saída de um tratamento com quimioterapia. Em razão do tratamento tão agressivo para o organismo, ela sentia como se tivesse perdido um pouco do paladar e olfato. Chorando diante de todos nós, ela estava comovida com o fato de voltar a sentir tão intensamente tudo outra vez. Sentia-se apenas “viva” de novo. Houve, também, uma dentista com vinte e cinco anos de profissão e que sentia o nariz embotado pela prática, pois envolvia estar submetida a cheiros muito fortes constantemente. Arrepiou-se ao contar que sentia como se seu olfato tivesse voltado a captar a delicadeza de aromas sutis.

 

Diante desses relatos, começamos a nos perguntar: de que realmente se trata tudo isso? Que dimensão e profundidades podemos atingir quando estamos mexendo com sentidos íntimos? Alguns dias antes do evento, Mônica Costa sonhara que estávamos prestes a começar uma sessão de chá num local onde havia águas cobrindo-nos até o joelho, quando de súbito surge um crocodilo que ataca os nossos participantes. No sonho, eu e ela fomos estudar como domar crocodilos em caso de ataques. A mensagem para nós estava clara: em primeiro lugar, que estávamos mexendo com extratos cerebrais muito primitivos (especificamente com o cérebro reptiliano) e que nossa atitude seria no sentido de não exterminar aquela potência (censurar), mas de entrar em relação com ela: integrar.

Nunca é demais relembrar que o comer e o beber, por serem atos tão banais e cotidianos, guardam infinitas chaves de acesso aos nossos interiores. A esse respeito, não posso deixar de citar Em Busca do Tempo Perdido, em que Marcel Proust defende de modo sublime o valor supremo do paladar e do olfato como sentidos fundamentais no processo de construção da nossa memória. Ao final do primeiro capítulo, cujo clímax é a célebre passagem da “madeleine com chá”, o escritor francês desata nesse épico parágrafo: “Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas – sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fieis – o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando sobre as ruínas de todo o mais e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso das recordações”. Não é pouco crocodilo.