Os sentidos do chá

“Seguir o Dao é contemplar o caminho do céu e praticar seu movimento”

 

Por que falar em “sentidos do chá”? A palavra sentido tem muitos sentidos... Pode remeter-se a significado, ou seja, atributos e valores; mas também se refere aos órgão perceptivos – os sentidos corporais; por fim tem a ver com vetor, trajetória e direção. É sob esses três aspectos da palavra “sentido” que experimentamos o encontro com o chá.

1.     Significados e valores do chá: convívio social, disparador dos diálogos, intuição do equilíbrio, convite à contemplação e à escuta. Uma bebida associada à diplomacia. As metáforas orientais relacionadas ao chá buscam transmitir ensinamentos de compreensão da dinâmica da vida, de desapego, aceitação e resiliência perante os altos e baixos do viver. A composição química (e filosófico-poética) do chá permite acessar um estado de maior abertura e disponibilidade para o outro, para os significados mais profundos da existência ou seja, para a escuta do silêncio interno.

2.     Educação sensorial através do chá: o estudo do chá é, essencialmente, empírico. Ou seja, é mediante a experiência por contato direto entre nosso corpo e o chá que procuramos conhece-lo, empregando para isso todos os sentidos físicos: visão, audição, tato, paladar e olfato participam dessa operação. Põe em ação, se quisermos, também outras qualidades de sentidos que nossa ciência ainda não estudou, não alcançou. E o desenvolvimento dessas habilidades sensoriais nos leva a uma maior aptidão para perceber amplamente as nuances e particularidades de cada chá. Percepção esta que se estende para outros aspectos da vida, no discernimento de como as coisas ao redor nos afetam e modificam.

3.     Trajetória ou "caminho do chá": as disciplinas orientais milenares referem-se a certas práticas espirituais como “caminhos”. Os caminhos são modos de realizar determinadas ações com vistas a atingir, por força da repetição consciente e sensível, uma tal superação da técnica que a faz parecer espontânea e fluida. Diz-se que é um caminho pois afinal não há um lugar a se chegar, nem metas a cumprir. Há apenas uma noção de sentido, de direção: é sempre um "retornar". Retornar às origens, à simplicidade, à unidade que enlaça a multiplicidade. O homem cria essas técnicas - como as lutas marciais, os arranjos florais, o arco-e-flecha ou o chá - para que elas sirvam de caminho e o reconduzam de volta à natureza. A cerimônia do chá, tanto chinesa quanto japonesa, tem esse propósito de nos permitir restabelecer a singela e dinâmica harmonia entre nossa vida e a existência. Entendida desse modo, para os orientais, a cerimônia do chá é uma “arte”.

Se fosse possível sintetizar num único sentido todos os sentidos do chá, resumiria da seguinte forma: trata-se de um ritual  que visa ao cultivo de nossa sensibilidade para a beleza. Sensibilidade estética a serviço da vida, portanto com fundamento ético, ecológico. Cultivamos a escuta corporal para captar a dança da vida, sincronizando nosso movimento com o fluxo dos acontecimentos. Perceber como a vida atravessa este corpo e diluir, por alguns instantes, a fronteira eu-mundo para intensificar a percepção de que somos parte – e não apartados – da biosfera.

A arte do chá é para além do “chá em si” – assim como a arte da espada é não-espada e assim por diante – pois não se trata especificamente do que se faz, mas sim de como se faz. Podemos praticar o chá sem, no entanto, estarmos bebendo o chá. O que é praticar o chá sem o chá? É tornar-se como uma pequena xícara, uma concavidade com a face sempre aberta para o infinito. Esvaziar-se para receber mais da vida. Deixar ir para tornar a se preencher incessantemente. “Beber o chá” é nutrir-se da fonte que sustenta o universo e sentir nossas raízes mergulhadas no absoluto que permeia a existência.